Cenário 1 - Imagine um cidadão comum, desprovido dos conhecimentos acadêmicos proporcionados pela Faculdade de Medicina, montando um consultório médico e realizando consultas de pessoas que não estejam se sentindo bem, emitindo diagnósticos e prescrevendo receituários médicos?
Com certeza ele será denunciado às autoridades e estas, certamente, o prenderão e o processarão sob a acusação da prática do crime de charlatanismo que, de acordo com o direito pode ser traduzido como “exploração da credulidade pública, inculcando ou anunciando cura por meio secreto ou infalível”, mas, popularmente refere-se à prática ilegal da Medicina.
Cenário 2 – Imagine um cidadão desprovido do título de bacharel em Ciências Jurídicas montando um escritório de advocacia e prestando assessoria judicial nas áreas de Família, Tributos, Legislação Eleitoral; Previdência; Trabalhista, Cível e Criminal, entre tantas outras vertentes do Direito?
Por certo a Ordem dos Advogados do Brasil, por meio de seus departamentos competentes, mandaria o “rábula” para a cadeia, haja vista que a instituição é uma das mais severa dentre suas congêneres na fiscalização do exercício da profissão, tanto que milhões de bacharéis em Direito estão proibidos de exercer a profissão porque não conseguem ser aprovados no famoso “Exame da Ordem”. Imagine, portanto, o “furdunço” que causaria um ser dotado de conhecimentos empíricos exercendo a função de advogado?
Cenário 3 – Imagine um ser semialfabetizado, daqueles que mal e porcamente concluíram o Ensino Fundamental, abrindo uma empresa e criando um site de notícias na Internet onde, além dos noticiários produzidos por assessorias de empresas e de detentores de mandatos eletivos, bem como da utilização do conhecido “copia e cola”, veiculam “materiais jornalísticos” de sua autoria e de autoria de pessoas de seu convívio também desprovidas de quaisquer conhecimentos técnicos, jurídicos e éticos sobre o exercício do Jornalismo?
Não há qualquer dúvida de que nada irá acontecer a este cidadão ou a tantos outros que já fizeram e farão o mesmo no futuro.
Pelo contrário, alguns que se inserem nessa categoria de “jornalista” até se sairão melhor do que muitos profissionais que ficaram quatro anos na Faculdade de Comunicação Social e que exercem a profissão respeitando as mínimas regras técnicas, éticas e jurídicas.
O jornalismo no Brasil é a verdadeira casa da Mãe Joana. Todo mundo pode ser jornalista. Basta ir no Ministério do Trabalho e pedir um Registro Profissional e pronto! Está na rua mais um “fazedor de jornal”.
Não se quer aqui discriminar homens e mulheres que exercem a profissão de jornalistas sem terem obtido grau de bacharéis para tal. Pelo contrário. Por ser a nossa uma profissão muito democrática, os próprios jornalistas formados reconhecem o valor e a importância da contribuição que pessoas capacitadas, dotadas de conhecimentos e com formação em outras áreas, dão não só ao Jornalismo Brasileiro como ao Jornalismo de todo o mundo.
O que machuca muito a todos nós que atuamos com denodo e compromisso é ver que muitos ainda preferem valorizar o analfabeto funcional investido do papel de “lambe-botas” ou simplesmente “puxa-saco”, a dar valor ao profissional que exerce a profissão com independência, com sua linha de ação sempre calcada no Jornalismo independente, sério e de credibilidade indiscutível.
Num país onde há milhões de doutores sem doutorado, os verdadeiros “coronéis sem patente” do século XXI, os “baba-ovos” continuarão valendo mais do que os profissionais, pois, enquanto jornais e revistas do porte da Folha de S. Paulo; O Globo; Estado de S. Paulo; Veja e Isto É, entre outras publicações, referem-se a ministros do STF, do STJ e de outros altos tribunais pelo nome, o mesmo valendo até para o ministro da Justiça, os áulicos, aqueles que são subservientes e agem de modo extremamente servil, patenteiam por DOUTOR até mesmo a secretários municipais, vereadores e toda e qualquer “otoridade” que lhes possa trazer benefícios futuros.
Infelizmente, quando vemos esses seres servis valendo mais do que os verdadeiros profissionais da imprensa e vemos ao mesmo tempo quem pode mudar esse cenário se calando, assassinamos mais uma vez o médico e jornalista Giovanni Battista Líbero Badaró, morto por inimigos políticos em 7 de abril 1830, motivo pelo que nesta data se comemora o Dia do Jornalista, instituído em 1931, por decisão da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).
Mais do que (re) assassinar nosso Patrono, damos munição para que personalidades do mundo político que se sentem acima do bem e do mal e que se juntaram ao jornalismo de baixo padrão para exporem seus pensamentos, difundam ideias reacionárias de que o jornalismo é um caso para ser analisado pelo Ibama, porque seus operadores, os jornalistas, seriam “animais em extinção”.
Desculpem o desabafo! Salve 7 de abril. Viva o Jornalismo feito pelo Jornalista!
NOTA - Líbero Badaró, como era mais conhecido, era um oposicionista ao imperador D. Pedro I e foi o criador do Observatório Constitucional, jornal independente que focava em temas políticos até então censurados ou encobertos pela monarquia. Badaró era defensor da liberdade de imprensa e morreu em virtude de suas denúncias e de sua ideologia que contrariava os homens do poder.
Autor: Jota Menon - Bacharel em Jornalismo formado pela UFMS.
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