Antônio João, MS: comoção e choro no velório de índio morto ao buscar filho de 4 anos - Jornal Correio MS

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31/08/2015

Antônio João, MS: comoção e choro no velório de índio morto ao buscar filho de 4 anos

Comoção entre os índios ao chegar o caixão do patrício Simeão (Foto: Marcos Ermínio, enviado especial a Antônio João)

Depois de três horas de viagem até Antonio João, a equipe do Campo Grande News chegou a cidade no início da manhã deste domingo (30), sob um clima de tranquilidade, depois dos conflitos ocorridos nas fazendas Barra e Fronteira, ocupadas pelos índios Guarani Kaiowá desde a semana passada, que culminou na morte do indígena Semião Fernandes Vilhalva, de 24 anos. O momento da abertura do caixão em que estava o corpo dele foi a cena mais comovente de ontem.

Semião era casado com Janaína, de pouco mais de 20 anos de idade, e deixou uma criança de 4 anos, filho que ele teria tentado defender, mas antes de encontrá-la na invernada, foi atingido por um tiro no rosto, que saiu na nuca, caindo às margens do córrego estrelinha, próximo da sede da Fazenda Fronteira.

a esposa Janaína chorou o tempo todo ao ver o rosto do marido Semião no caixão (Foto: Marcos Ermínio)
O corpo de Semião chegou a sede da Fazenda Cedro, a cerca de 9 quilômetros da cidade, por volta das 14 horas da tarde desse domingo. Em seguida, cerca de 50 indígenas seguiram caminhando sob sol forte e temperatura acima dos 33ºC, por cerca de 40 minutos até chegarem a sede da Fazenda Fronteira, local em que o índio foi morto.

A índia Leni, avó e mãe do bebê ferido com tiros de borracha, retirando a mortalha para ver o rosto de Semião (Foto: Marcos Ermínio)

O irmão Mariano Vilhaça observa o rosto de Simeão (Foto: Marcos Ermínio)

Inicialmente, os índios queriam velar o corpo na sede da fazenda, porém o local está sob proteção da Força Nacional e do Exército. No momento, houve tensão entre os indígenas e os policiais, até que aceitaram a proposta do capitão da Força Nacional, que recomendou que eles velassem o corpo na casa do outro lado do córrego, local em que estavam os familiares da vítima.

A chegada do caixão no local foi uma cena muito triste e que emocionou a todos, principalmente ao retirarem a tampa e revelar o rosto do rapaz de 24 anos, mais um na estatística de mortes na luta pela terra, segundo nesta área em litígio há mais de 10 anos. 


Índio chora a morte de Simeão durante velório (Foto: Marcos Ermínio)
Marcada pela simplicidade dos indígenas, o caixão foi colocado em uma varanda da casa sobre um banco de madeira, ao lado de um galpão onde fica guardado o sal e o calcário da fazenda. Por alguns minutos a esposa do índio morto chorou desesperada ao vê-lo no caixão. O filho não estava próximo no momento. A cena é a mesma, sendo índio ou branco, a despedida de um “guerreiro”, como diz os índios, é algo que choca, pela brutalidade.

O corpo de Semião foi velado durante toda a noite deste domingo, quando aconteceu uma reza durante a cerimônia de despedida e o enterro deve acontecer no mesmo local em que ele foi morto na tarde desta segunda-feira.

Durante o período da tarde deste domingo em que permanecemos entre os índios não observou qualquer situação de hostilidade por parte dos indígenas, mas sim a preocupação de um povo na tentativa de se defender para evitar mais mortes e sedentos por divulgar a versão deles dos fatos, como disse a índia Leni, avó e ao mesmo tempo mãe da pequenina Analieni, ferida com duas balas de borracha, uma nas costas e outra na nuca, “nós queríamos o diálogo e não o confronto”, ao lembrar do conflito ocorrido no sábado.






Fonte: campograndenews
Por: Antônio Marques, enviado especial a Antônio João
Link original: http://www.campograndenews.com.br/cidades/interior/comocao-e-choro-no-velorio-de-indio-morto-ao-buscar-filho-de-4-anos